Anaximandro

Sobre a SSPR

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A Sociedade Soberana dos Planetas Rochosos

Caro leitor, a esta altura você talvez esteja se perguntando sobre a SSPR.

Essa instituição que sempre parece estar no caminho de Anaximandro — ou, para sermos justos, sobre a qual Anaximandro parece ter o talento especial de tropeçar com o rosto — teve, paradoxalmente, ao menos uma função positiva até aqui.

Permitiu que esta história existisse.

Sem a SSPR, não teríamos Anaximandro. Não conheceríamos Apeiron. Eu não teria sido arrastado para narrar as desventuras de um cientista, uma geleia de amora e uma quantidade juridicamente indecente de realidades paralelas.

Talvez eu estivesse narrando outra coisa.
A vida secreta dos unicórnios, por exemplo.
Não riam. Unicórnios têm uma vida secreta muito mais complexa do que deixam transparecer, principalmente na área fiscal. Mas essa é uma história para outro narrador, preferencialmente um com plano odontológico melhor.

Se você não conhece a SSPR, não se sinta constrangido. Apesar de praticamente onipresente nas 1.088 realidades sob sua jurisdição, ela costuma ser discreta em escala planetária. Discreta do mesmo modo que cupins, impostos e certas formas de culpa são discretos: você só percebe quando a estrutura já está comprometida.

A SSPR mantém relações formais apenas com governos, grandes corporações, entidades autorizadas e, por razões que nunca me foram devidamente explicadas, o Sindicato dos Narradores.

Não me perguntem.
Eu perguntei uma vez.
A resposta veio em três vias, com firma reconhecida, cláusula de confidencialidade e uma ameaça bastante educada.

A Sociedade Soberana dos Planetas Rochosos formou-se há muito tempo. Sua história é claramente documentada, versionada, arquivada, indexada, cruzada, carimbada, revisada e preservada em todos os detalhes.

Esse, aliás, é o problema.

Há tantos detalhes que ninguém tem coragem, tempo ou estabilidade emocional para escrever uma versão resumida de sua origem. Existem bibliotecários especializados apenas no índice remissivo do período inicial da SSPR. Existem bibliotecários especializados no índice remissivo dos bibliotecários especializados no índice remissivo. Há, segundo rumores, uma guerra fria entre duas escolas de catalogação que discordam sobre se o ano 14.882 deve ser arquivado antes ou depois do ano 14.882-B, que só existiu em realidades onde a quinta-feira foi abolida.

O consenso — palavra que, em biblioteconomia, significa “a briga esfriou o suficiente para virar nota de rodapé” — é que a SSPR começou como uma aliança modesta entre alguns planetas rochosos de uma única realidade.

Como o nome sugere, eram planetas.
Eram rochosos.
E, por algum motivo que provavelmente parecia razoável na ata original, consideravam-se soberanos.

Luas, planetas gasosos, asteroides, cometas, estações artificiais, enxames orbitais, anéis conscientes e pelo menos uma nuvem de poeira com ambições diplomáticas participavam apenas como membros observadores.

Isso mudou com o tempo.
Tudo muda com o tempo, exceto certos formulários.

A SSPR cresceu. Primeiro englobou luas. Depois planetas gasosos. Depois estruturas artificiais. Depois objetos astronômicos que não eram exatamente objetos, corpos celestes que não eram exatamente corpos e entidades políticas que orbitavam apenas no sentido metafórico.

Então Apeiron foi descoberto.

E, como costuma acontecer quando uma instituição encontra uma porta para mais realidades, ela fez a única coisa que instituições fazem bem: abriu uma filial.
Depois outra.
Depois outra.
Depois uma comissão para padronizar filiais em realidades onde o conceito de filial era considerado ofensivo.

Com o tempo, a SSPR deixou de ser uma estrutura vertical e tornou-se mais horizontal. Segundo os bibliotecários, isso foi feito para impedir que alguém tivesse poder demais.

Funcionou.
Hoje, ninguém tem poder demais.
Infelizmente, ninguém tem poder suficiente.

Essa é uma distinção importante.

A SSPR não é governada por um imperador oculto sentado em um trono de basalto, acariciando um animal de estimação geneticamente improvável e ordenando genocídios antes do almoço. Isso seria simples. Vulgar, até. Haveria um responsável. Um endereço. Uma sala onde entrar com dramaticidade.

A SSPR não oferece esse tipo de gentileza narrativa.

A SSPR é feita de departamentos.
Departamentos de departamentos.
Setores criados para fiscalizar setores que foram extintos, mas que continuam recebendo verba porque o setor responsável por confirmar a extinção perdeu acesso ao próprio sistema.

Ninguém manda na SSPR inteira.
E, justamente por isso, a SSPR inteira manda em todo mundo.

Ela não precisa querer causar uma atrocidade. Querer é uma atividade arriscada, subjetiva, difícil de auditar. A SSPR prefere algo mais limpo: parâmetros, alçadas, pareceres, fluxos, protocolos e assinaturas digitais de pessoas que estavam atrasadas para o café.

Um formulário entra.
Um despacho sai.
Entre os dois, mundos podem desaparecer.

Não por maldade.
Maldade, na SSPR, seria quase reconfortante. Maldade indicaria intenção. Intenção indicaria culpa. Culpa indicaria possibilidade de processo. Processo indicaria, ainda que remotamente, uma chance de responsabilização.

A SSPR não trabalha com categorias tão sentimentais.
Ela trabalha com tramitação.

Deixe-me contar uma história.
É uma história famosa entre os bibliotecários — sim, eu sei, também estou surpreso com a frequência com que essa palavra tem aparecido — e costuma ser usada em cursos internos da SSPR como exemplo de operação tecnicamente bem-sucedida.

Isso deveria preocupá-los.

Começou, como muitas tragédias administrativas, com um pedido simples.
Um pedido de área de pouso orbital — protocolo 22‑B, subclasse de “apoio a visita diplomática de médio porte”. Nada fora do comum. Duas linhas de descrição, uma coordenada, um “grato pela atenção”.

Algum tempo depois — três meses, onze despachos, oito retificações e uma tarde particularmente tediosa na engenharia de infraestrutura — o pedido foi aprovado.

Quer dizer, em tese foi aprovado. O documento dizia “Aprovado mediante adequação estrutural conforme padrões de segurança estabelecidos pela Seção R‑77”, que é o tipo de frase que, traduzida para o português, significa “ninguém checou exatamente o quê”.

Foi então encaminhado para o Setor de Engenharia Orbital, que avaliou que a área proposta era pequena demais para naves de longo alcance.

O protocolo exigia um parecer secundário.
O parecer secundário citou outro parecer.
O outro parecer foi anulado.
A anulação precisava de assinatura.
A assinatura era digital, mas o servidor estava em horário de manutenção.
A manutenção prolongou‑se por três dias devido a uma greve parcial dos Técnicos de Realidade Localizada, que alegavam exposição excessiva a paradoxos de pequeno porte no ambiente de trabalho.

Ao retomar, o sistema havia perdido dois anexos e iniciou uma 'recuperação automática'.

O resultado produzido automaticamente juntou as partes que ainda existiam e concluiu, num parágrafo que ninguém mais sabe de onde saiu, que era “necessário assegurar perímetro de segurança de cinquenta quilômetros ao redor da área de pouso, conforme protocolo de prevenção à fragmentação gravitacional secundária”.

Ninguém sabia o que era “fragmentação gravitacional secundária”.
Mas parecia importante. E, na SSPR, importante é o mesmo que irrecorrível.

O pedido viajou, então, para o Setor de Segurança.
O protocolo determinava revisão, mas o supervisor do dia — um homem de coração mole e nave particular com histórico de pousar longe demais — achou o texto convincente, colocou carimbo de URGENTE e o enviou com uma nota digitada à mão:

“Entendo a frustração do requerente.
Justo.
Todo mundo odeia andar.”

E assinou.
A nota virou parte do documento oficial, o que na SSPR equivale a um decreto.
Dali em diante tudo se acelerou.

A engenharia entra em campo

Engenharia recebeu autorização, código verde, e mobilizou equipes.
No meio da rota havia duas cidades de médio porte, chamadas Pearel e Istara, separadas por um lago e bastante orgulhosas de terem conseguido o que chamavam de “internet municipal”.

Na notificação do projeto, foram listadas não como cidades, mas como “obstruções topográficas assentadas”.

A seção cívica de registro populacional havia sido mesclada, meses antes, com o setor de meteorologia aplicada para otimização de recursos.
Alguém classificou a população conjunta — cento e quarenta mil pessoas — como “nuvem densa estacionária”, código meteorológico NDS.
A confusão nunca foi corrigida.

As naves de engenharia chegaram uma segunda‑feira.
Um operador local, vendo máquinas descendo com banners da SSPR e tratores orbitais abrindo caminho, tentou contestar.
Foi sumariamente encaminhado para o subdiretório “reclamações locais”.

O sistema respondeu com um formulário de 47 páginas intitulado “Solicitação de Contraprova”, cujo prazo de 180 dias foi considerado, pela própria SSPR, “exclusivamente ilustrativo”.

Dois dias depois, moradores se organizaram e bloquearam a área.
A coordenação de engenharia, em pânico, avisou o setor de Segurança Operacional: havia resistência civil.

A segurança avaliou o formulário: todos os carimbos eram legítimos.
Se o protocolo está válido, a operação é válida.
E se é válida, deve ser cumprida.
E se é ameaçada, deve ser protegida.

Foram despachadas naves de escolta com poderes excepcionais para garantir a integridade da equipe técnica.

As forças locais atacaram primeiro — dizem.
O que, juridicamente, bastou.
A designação mudou de “operação de adequação espacial” para “operação de defesa de pessoal em campo”.

Essa atualização, feita automaticamente, ativou um pacote de emergência com autorização para uso total de força defensiva.
Ninguém percebeu.
Ninguém precisava perceber.
Foi processual.

As cidades resistiram por alguns minutos, tempo médio que levou a palavra “defensiva” a se traduzir, nos computadores de bordo, em “prioridade de destruição preventiva”.

As comunicações cessaram.
A engenharia desceu.
A engenharia removeu.

O relatório foi anexado a um dossiê‑modelo que descrevia a operação como exemplo de coordenação eficiente interdepartamental.
Chamaram de Operação Margem Segura.

Encerramento do chamado

Três meses depois, uma auditora em treinamento tentou entender o número anormal de baixas registradas sob o código de manutenção orbital.
Recebeu a resposta padrão:

Assunto encerrado.
Ordem cumprida conforme todos os protocolos de segurança vigentes.
Nada a investigar.
O campo “custo humano” não estava previsto no formulário.

Um historiador da divisão de registros comparados encontrou o caso anos depois e fez uma observação à margem:

“Um holocausto administrativo. O maior inimigo era a coerência de procedimentos.”

Esse comentário foi considerado “linguagem metafórica”, e a SSPR emitiu uma nota lembrando que “a instituição não comenta casos individuais de infraestrutura”.

É importante notar — repito, caro leitor — que ninguém ali era especialmente cruel.
A SSPR não precisou de monstros.
Só precisou de pessoal.
Pessoal que cumprisse prazos, seguisse normas, pedisse revisão, carimbasse urgência, solicitasse apoio de segurança e anotasse tudo na planilha correta.

Nenhum deles mentiu em seus relatórios.
Todos os dados constavam.
Pearel e Istara foram removidas dentro dos parâmetros de segurança, atendendo à exigência dos cinquenta quilômetros de margem de cada lado e do respeito aos procedimentos de segurança de pessoal.
O protocolo foi cumprido com excelência.

E o pedido original — uma simples vaga de pouso orbital — foi arquivado como concluído com sucesso, tempo total de tramitação: cinco meses e seis dias.


O problema da SSPR não é que ela não funcione.
O problema é exatamente esse:
ela funciona.